Conversando sobre odontogeriatria no Brasil 3
| 9/05/2008 - 8:10 Por: Wanda Patrocinio |
Categoria(s): Gerontologia |
Valter Salton Vieira, chefe da Editora Limay, entrevista o pesquisador mentor Fernando Luiz Brunetti Montenegro.
Existe algum preconceito da Classe Médica com a Odontogeriatria?
R: Como, infelizmente, a Odontogeriatria não é ensinada na maioria das faculdades brasileiras – também pelo imenso corte funcional que têm feito nos últimos tempos – as novas e antigas gerações de dentistas pouco sabem desta fascinante área da Odontologia e muitos CDs que encontro nos Cursos que ministro pelo Brasil (e já são mais de 130 até hoje) se pregam nos seguintes chavões: “odontogeriatria? É só colocar dentaduras nos velhinhos”, “pra que tratar os dentes se vão perdê-los com o passar dos anos?”. Só para citar dois dos mais comuns “chavões”… Ambos não correspondem em nada à Odontogeriatria que conheço e estudo e que é também aquela praticada nos países mais desenvolvidos do Mundo. Sobre o 1o preconceito, o nível de edentulismo tem caído em todo a Terra e no Brasil, mesmo com suas imensas carências na área de saúde, mais e mais pessoas chegam à 3a idade com dentes naturais seus e que vão precisar de intervenções clínicas muito diferentes de próteses totais (“dentaduras”). É isto que vemos nos pacientes idosos de consultório e na clínica dos Cursos de Especialização (mas é claro, existem muitas próteses totais a fazer, pois os pacientes não as revisam por 15/20/30 anos e, quando chegam aos nossos olhos, estão em péssimo estado bucal e facial…). Considerando agora o 2o ponto, é vital ponderar que nenhum de nós dentistas aprendeu que os dentes inevitavelmente vão se perder com o passar dos anos. Eles SÓ se perdem por falta de controles constantes, de revisão periodontal, de cáries, de oclusão e do estado das próteses que os pacientes possuem. A Prevenção tem resultados práticos REAIS – como se vê em todo o Mundo desenvolvido – e não podemos esquecer que as pessoas de 80/90/100 anos de hoje nunca tiveram contato com a Odontologia Preventiva, que só desabrochou no Brasil lá pelos anos 60/70 do século passado. Os pacientes destas idades NÃO tiveram formação preventiva e cabe à nós ensiná-la e é muito gratificante um idoso nos falar: “puxa, doutor, fui em dentistas por toda a minha vida (sic.) e só com o sr. vim a aprender como se cuida da boca e me sinto muito melhor com meus dentes hoje que nos últimos 20/30 anos!“. E não precisa ser um Odontogeriatra para ouvir isto: basta ser mais incisivo com medidas preventivas ao tratar dos adultos e dos mais idosos. Você vê nos crânios de homens pré-históricos que os dentes e osso de suporte estão lá há mais de 40/50/200.000 anos que faleceram… dentes bem cuidados duram bem mais que os 120 anos que podemos viver! Por isto, abaixo os preconceitos sem sustentação e mãos à obra: há MUITO o quê fazer pela condição bucal dos idosos brasileiros!
Quais as dicas que você daria para quem participa deste público diferenciado?
R: Primeiro: pensar nele como um ser humano único e JAMAIS como alguém que retornou à infância. Eles estão sedentos de saber coisas (e as “nossas coisas” ele não sabe ainda!). Segundo: faça excelente anamnese, com perfil de medicamentos e converse com os médicos dos pacientes: você vai se espantar como eles estão receptivos ao diálogo e é disto que os pacientes idosos precisam. Depois: pense simples, ou seja, não busque opções reabilitadores de difícil higienização se o paciente tem (ou vai ter breve, para muitos) um problema de coordenação motora, mas isto não quer dizer extrair e fazer próteses totais ou remover dentes bons (ou só com pequenas cáries) para colocar implantes! Ouça o paciente: ele tem uma história de vida riquíssima e que é diferente daquela da sua família. Marque um tempo longo para o idoso e deixe ele se soltar que você, seja de que idade for, tem muito a conhecer de um mundo que não viveu (porque nem era nascido, muitas vezes!). Isto cria uma intimidade, cooperação e uma fidelização fantásticas! Estude, aprofunde-se: existem inúmeros cursos de iniciação/aperfeiçoamento e de especialização na área atualmente e um mundo clínico novo pode se descortinar para você: basta você querer!
*Valter Salton Vieira – Editor-Chefe da Editora Limay. editora@limay.com.br
**Fernando Luiz Brunetti Montenegro – Mestre e Doutor pela FOUSP. Coordenador de Cursos de Especialização em Odontogeriatria. Membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia-SBGG. fbrunetti@terra.com.br
Para saber mais: www.portaldoenvelhecimento.net Coluna de Odontogeriatria.
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