Namoro na idade do vov√ī

24/06/2008 - 12:49 Por:

Categoria(s): Curiosidades, Educação, Gerontologia

Foi um susto e tanto. Meus tios nem tanto, mas as tias e, principalmente, minha m√£e, tiveram um treco daqueles: meu av√ī apareceu com uma namorada. Uma namorada. Nova? Nada, ela tem sessenta e um anos:

РIsso é um absurdo papai, o que os outros vão pensar?

– Que sou vi√ļvo e posso namorar como qualquer ser humano. Voc√™ n√£o separou e casou de novo?

– Mas eu tenho quarenta e sete anos!

РE eu sessenta e nove. Pouca diferença.

– Ah sim, estou quase com setenta anos tamb√©m, obrigada! Pense um pouco papai, pensa… E a mam√£e o que acharia?

– Acharia um pouco magra para idade dela.

– Papai!

– Desencana minha filha, a gente n√£o come√ßou namorar do nada. N√≥s come√ßamos a ficar faz mais de um ano, nos conhecemos melhor e…

– ‚ÄúDesencana‚ÄĚ? ‚ÄúFicar‚ÄĚ? Um ano? Roberto vem falar com o papai para ele ver ju√≠zo disso tudo!

– √Č… bem… Hum, Seu Luiz, n√£o acha que √© meio idoso para sair para balada n√£o?

– Primeiramente a gente n√£o sai para balada. Vamos ao bingo, bailes, viajamos em excurs√Ķes para terceira idade. Ora bolas gente, eu aposentei! Tenho que aproveitar tudo o que semeei e plantei. Eu e sua m√£e criamos voc√™s todos, j√° s√£o independentes. Deixe-me curtir a vida.

РEu sabia que aqueles bailes eram uma fria, eu disse para não deixar o papai ir. Isso é culpa sua Beatriz!

РMinha? Você que não vem visitar mais o papai.

– Meninas, por favor! Relaxam um pouco.

– Relaxar? Eu preciso de uma bebida…

– Uma pergunta indiscreta Seu Luiz, voc√™ e sua namorada j√°…

РA ciência é uma maravilha, meu genro. O Viagra mudou a minha vida e de muito cabeça branca!

– √Č mesmo? O neg√≥cio funciona ent√£o.

– Roberto!

РVixe, de uma maneira até feroz, viu?

– Papai!

√Č claro que eu e meus primos ouvimos toda essa baderna. Depois que a poeira abaixou, fui conversar com o meu av√ī. Para entender melhor essa hist√≥ria de namoro. Ap√≥s conversar bastante com ele, mudei minha perspectiva sobre a vida.

Uma coisa é que não fazem velhos como antigamente. Quando criança, eu me imaginava como seria ser caduco. Uma coisa do tipo maracujá enrugado de terno xadrez-festa-junina com bengala e chapéu de espantalho. Que nada, os velhos de hoje são bem mais interessantes.

Meu av√ī fez uma analogia muito interessante com o meu presente e o passado dele. As mulheres de quarenta anos da √©poca dele eram um bando de santas peregrinando nas igrejas. As quarentonas da minha √©poca? Eu mesmo j√° fiquei com duas e garanto que rezar n√£o √© a especialidade delas. Perguntei a ele:

– V√ī, os homens com sua idade de hoje aparentavam como?

– Av√īs, av√īs…

– E as mulheres?

– Bisav√≥s, bisav√≥s…

E ele tem muita raz√£o. Meu av√ī, por exemplo, ele tinge o cabelo, faz a sobrancelha, malha para perder a barriga, faz dieta, veste como um cara de trinta anos, entre outras coisas. S√≥ n√£o o chamo de metrossexual porque mesmo moderno desse jeito, ele ainda acredita no velho sistema de corre√ß√£o da juventude: a cinta. Ele consegue fazer praticamente tudo o que meu tio de trinta e cinco anos faz, com bem mais disposi√ß√£o. E olha, o tio est√° sofrendo de uns trecos ruins do cora√ß√£o. O av√ī, s√≥ tem alegria no dele.

Contudo, ao deixar meu av√ī voltar para o campo de batalha com seus filhos, reclamando ‚Äúo pior n√£o √© ter quase setenta anos com a cabe√ßa de vinte e poucos anos, e sim ter quase cinq√ľenta com mentalidade de noventa‚ÄĚ, comecei a pensar: o que √© envelhecer?

Fiquei muito nervoso e apreensivo. Meus tios e pais, com seus quarenta e cinq√ľenta anos, vendo o que √© melhor para um senhor de setenta anos. Ser√° que vou seguir este ciclo? Vou brigar com meus pais por estarem vivendo os anos que restam de paz? Poxa, se o ser humano est√° vivendo at√© os oitenta, meu av√ī ainda tem uns quinze anos pra frente. Ele n√£o pode ficar em casa apenas esperando o dia do ju√≠zo final chegar. Ent√£o conclu√≠: N√£o existe idade. A gente √© que cria. Se voc√™ n√£o acredita na idade, n√£o envelhece at√© o dia da morte.

Por√©m meu momento ‚ÄúM√°rcia Hayd√©e‚ÄĚ √© quebrado com a minha m√£e desmaiando. Meu av√ī mostrou a tatuagem dele. As duas.

Autor: Guilherme A. B. C. Ishie – abc_ishie@yahoo.com.br

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2 Comments »

  1. zaira r. dos santos figueira dá seu palpite,

    setembro 6, 2008 @ 17:55

    espetacular a sua historia, estou pesquisando sobre a sexualidade na terceira idade e o trabalho da Terapia O cupacional(TO) . e sua narrativa me fez surgir novas ideias.

  2. Wanda Patrocinio dá seu palpite,

    setembro 8, 2008 @ 9:26

    Oi Zaira, bom dia!

    Realmente, esta narrativa é bastante interessante!
    Sugiro que você escreva também para o autor dela, o Guilherme Ishie, e fale sobre a sua impressão sobre a escrita dele. abc_ishie@yahoo.com.br

    Um abraço,
    Wanda.

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