Uma política para o bem-envelhecer (Parte 4/6)

3/06/2010 - 15:16 Por: Wanda Patrocinio

Categoria(s): Gerontologia

Continuação da entrevista com Alexandre Kalache
A aplicação do programa leva as diferenças sociais em conta? 
— Deste prédio onde estamos, em Copacabana, é possível ver a favela de Pavão-Pavãozinho muito perto da gente. Todos os contrastes e as contradições do Brasil estão presentes aqui no bairro. Em 150 metros em linha reta é possível ir ao coração da favela, onde há uma das grandes bocas de tráfico do Rio. O Rio está cercado de favelas e o estudo foi feito também com o morador favelado. Vale para todos.
É fato que o idoso rico vive mais do que o idoso pobre mesmo quando este tem toda a assistência médica?
— Esse é um bom tema para discussão hoje. Michael Marmot, da Universidade de Londres, é provavelmente o maior especialista em saúde pública atualmente. Ele deu uma grande contribuição ao tema ao medir cientificamente essa situação. Marmot demonstrou que se pegarmos um ônibus, daqueles vermelhos de Londres, e rodarmos de Kilburn, que é um bairro pobre, para Hamstead, que é um bairro de rico, a cada 200 metros se ganha 1 ano de vida.  
Quanto mais perto do bairro rico, maior a expectativa de vida? 
— É isso aí. Há uma diferença de 10 anos na esperança de vida. Isso mesmo depois de ajustarmos os dados para excesso de peso, dieta inadequada, consumo de fumo e álcool, tudo o que há de ruim para a saúde, que são os fatores importantes para as doenças crônicas, majoritariamente as dos adultos. Ainda assim continuamos com uma diferença de esperança de vida maior para os ricos. Por que isso ocorre não se compreende muito bem ainda. Mas a suspeita é que tenha a ver com a autoestima. É aí que entra a cidade amiga do idoso valorizando a cidadania e o auto-respeito. Não é apenas aos 65 anos que uma pessoa se dá conta das desigualdades que se dão ao longo da vida. É duro chegar à velhice. É quando percebemos que nosso tempo passou e a esperança de antes se transforma em desespero. É importante atuar nas sociedades que estão envelhecendo, de modo a poder oferecer alguma segurança de que estaremos amparados quando mais precisarmos de amparo – e não só para conhecer os fatores que indicam quem é que vai morrer mais cedo ou mais tarde. À medida que envelhecemos, nosso interesse é não somente somar mais anos de vida, mas sim mais vida aos anos. É como assegurarmos um mínimo de qualidade de vida a nossos últimos anos. Este é o grande desafio.
É a isso que se refere o termo envelhecimento ativo? 
— A definição precisa de envelhecimento ativo é o processo de melhorar as oportunidades de saúde, participação, segurança, de forma a aumentar a qualidade de vida à medida que se envelhece. É um processo de otimização. As oportunidades estão sempre lá. Na sua idade, na minha, na de um jovem de 16 anos ou na de uma criança de 5 anos. Quanto mais cedo e com mais eficácia se aproveitar essas oportunidades, maiores serão os efeitos para a saúde. O segundo pilar do envelhecimento ativo é a participação. A saúde é a chave que lhe permite participar da vida da sociedade. Quer dizer, não é só a saúde pelo fato de estar saudável, mas para aproveitar, estar com energia, participar da vida da sua sociedade, pegar um ônibus quando for preciso, ter acesso a uma biblioteca, a um show ou ir à praia quando se tem vontade; estar inserido, e não ser excluído como ocorre tantas vezes com o incapacitado.
Por Neldson Marcolin/ Edição Impressa 145 – Março 2008
Fonte: FAPESP Pesquisa On Line, 14/03/2008. Disponível em: 
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3469&bd=1&pg=1&lg=

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