Uma política para o bem-envelhecer (Parte 5/6)

3/06/2010 - 15:57 Por: Wanda Patrocinio

Categoria(s): Gerontologia

Continuação da entrevista com Alexandre Kalache
A estimativa de um aumento da população idosa no mundo, de 11% em 2006 para 22% em 2050, era esperada?
— Depende para quem você pergunta. Os demógrafos, em geral, se surpreenderam. As pessoas estão vivendo mais. Quando eu nasci, em 1945, em Copacabana existia uma maternidade porque tinha muita criança e uma esperança de vida de 43 anos. No meu tempo de vida, ganhamos 30 anos de esperança de vida. Alguns países da América Latina, que podemos comparar com o Brasil, ganharam muito mais. Chile, Costa Rica, Cuba, além dos uruguaios e dos argentinos, estão com uma esperança de vida ainda maior. A do Chile e da Costa Rica era pior do que o Brasil nos anos 1940. E hoje estão com níveis europeus, por volta de 78 anos de esperança de vida, acima da nossa, que é de 73,2 anos. Estamos vivendo mais, mas isso tem um preço. Temos de nos preparar. Se não, condenamos essas pessoas. Viver mais passa a ser um prêmio vazio. Sobreviver em péssimo estado de saúde, sem qualidade de vida, não dá. A discussão, quando eu era estudante de medicina, era sobre o boom demográfico. A taxa de fecundidade total da brasileira em 1975 era de 5,8 filhos. Quase seis filhos na média. Hoje está em dois.
Inclusive nos estados mais pobres?
— A queda da fecundidade ocorreu em paralelo. Quando a da classe média caiu, em paralelo caíram as faixas mais pobres, nas zonas rurais, nas zonas urbanas e semi-urbanas, no Nordeste, no Amazonas, no Rio Grande do Sul, tudo em paralelo. Estamos falando de 1975. É muito pouco tempo para essa queda. Claro, houve o impacto dos métodos contraceptivos, que não existiam antes. Mas o que contribuiu para essa tremenda baixa na fecundidade é o fato de o Brasil ser um país muito aberto a mudanças de comportamento. Percebi em 1975 que o envelhecimento da população ocorreria mais rápido no Brasil do que vinha acontecendo no resto do mundo. Todos me perguntavam no exterior como é que tinha essa certeza e eu dizia que o país estava se modernizando. A mesma novela que era assistida em Copacabana era vista na periferia do Rio ou na zona rural do Maranhão. No final dos anos 1970 passou o seriado Malu Mulher, sobre uma mulher divorciada e emancipada, de grande sucesso, que virou mãe solteira e superava as dificuldades. Aquela heroína da classe média da Zona Sul do Rio teve seus valores disseminados. Era natural pensar, “Se a Malu tem um filho só, por que é que eu vou ter 3? Ou 6, como a minha mãe, ou 18 como a minha avó?”. Esses elementos que mudam comportamentos são importantes, mas não eram enxergados naquela época. A França levou 115 anos para dobrar a proporção de idosos de 7% para 14%. O Brasil vai dobrar de 9% para 18% em 17 anos, de 2005 ao início da década de 2020. Agora, a grande diferença é que os franceses levaram mais de 1 século para ir se adaptando ao envelhecimento, como outros países ricos. Para a França envelhecer foi necessário que a francesa do final do século XIX alcançasse um nível de educação mais alto, para poder fazer uso dos métodos rudimentares de controle da natalidade. Era difícil. Mas, pouco a pouco, de geração em geração, elas conseguiram controlar o número de crianças e aumentar a esperança de vida e, em 115 anos, dobrou a proporção de idosos. No Brasil isso tudo foi comprimido em uma geração. 
Como vencer esse desafio?
— Para nós, profissionais e pesquisadores da saúde, para os responsáveis pelo desenvolvimento urbano, planejamento, seguro social, comunicação, informática, é se adaptar ao mundo que envelhece muito rápido. Em 2050 teremos mais de 85% dos 2 bilhões de idosos em países como o Brasil.  
Mais de 80%?
— Por volta de 85%. É 1,7 bilhão de pessoas. E estarão em países em desenvolvimento. A grande diferença da França é que primeiro eles enriqueceram e depois envelheceram.   
O Brasil tem quantos idosos hoje?
— Em torno de 18 milhões. E vamos para 33 milhões em 2022. Não dá para esperar até chegar a 20% da população de idosos. Teremos de adaptar e desenvolver as políticas já. Inclusive discutir seriamente e sem medo a questão da Previdência Social e a idade da aposentadoria, que precisa ser revista.
Por Neldson Marcolin/ Edição Impressa 145 – Março 2008
Fonte: FAPESP Pesquisa On Line, 14/03/2008. Disponível em: 
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3469&bd=1&pg=1&lg=

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