Uma política para o bem-envelhecer (Parte 6/6)

3/06/2010 - 16:57 Por:

Categoria(s): Gerontologia

Continuação da entrevista com Alexandre Kalache
A definição de idoso é de 60 ou mais. Ela não está superada quando vemos pessoas na faixa dos 60 anos ainda muito dispostas física e mentalmente?  — Essa é uma definição antiga da Organização das Nações Unidas. Os países mais pobres não querem que seja atualizada. Alguém que tenha sido um trabalhador braçal, carregado peso acima da sua capacidade, mal alimentado, com uma infância subnutrida e infecções repetidas, além de trabalhar 12 horas por dia, não vai chegar aos 60 anos, muito menos aos 75, tão bem disposto quanto um nova-iorquino.  
Isso comprovaria que o peso do ambiente é maior do que o da genética?
— Só de 20% a 25% da velhice bem-sucedida se deve a fatores hereditários ou genéticos. O que determina realmente o sucesso na velhice são o ambiente e o estilo de vida. Não só o estilo de vida como praticar esporte ou ter boa dieta. Há três outros fatores de personalidade que são muito importantes. São eles: otimismo, autoeficácia e autoestima. Ser otimista por natureza é importante. Ter autoeficácia também, ou seja, essas são aquelas pessoas que conseguem comandar bem os próprios recursos – pode-se ter poucos, mas deve-se usar com eficácia aquilo que se tem, inclusive a saúde. E uma boa autoestima, se querer bem. De alguma forma esses três fatores refletem no futuro e talvez sejam a chave para entender os determinantes sociais de saúde. Se alguém foi sempre maltratado pela sociedade, essa pessoa não terá autoeficácia e muito menos autoestima. Ser otimista nessa situação é duro. E isso acaba por influir não só no número de anos que se vai viver, mas também na forma e na qualidade de vida que se terá.  
O que existe hoje de procedimentos antienvelhecimento na área médica? 
— Durante os 13 anos em que dirigi o programa da OMS cada vez que chegava e-mail com o assunto anti-ageing ou antienvelhecimento, eu nem abria. Se viesse por carta, para o lixo.
Por quê?
— Não há nada provado, nada que tenha sido demonstrado, com base empírica e em dados e evidências, que evite o envelhecimento. Nada que tenha convencido a mim ou pesquisadores sérios, que respeito. Na verdade, é uma contradição de termos… Antienvelhecimento? Só existe uma alternativa a ele e eu com certeza prefiro envelhecer se a única escolha for morrer cedo. Coisas como esses tratamentos ortomoleculares, por exemplo. Dá muito lucro para quem vende essa ilusão e muita esperança para aqueles que acreditam. É muito mais fácil acreditar numa pílula mágica que se toma pela manhã do que caminhar uma hora todos os dias. 
Como vê o recente estudo internacional que mostrou que se as pessoas chegam aos 70 anos em boa forma física em média são tão felizes e saudáveis em termos mentais quanto alguém de 20 anos? 
— Não é de estranhar, porque o idoso que chega bem aos 70 anos normalmente tem boa alimentação e aproveita seus recursos da forma mais eficaz, ganha a tal da autoeficácia. Mas há muitos outros que não a têm.  
Por que tanto empenho em trabalhar com idosos? Isso não é uma tarefa para jovens?
— Eu tive velhos fantásticos na minha família. A parte do meu pai é sírio-libanesa, com aqueles valores intensos. A parte de mãe é italiano-portuguesa, bem mediterrânea. Quando era criança, não tinha televisão. Os idosos da família eram velhos apaixonados, que guardavam e contavam histórias, que vinham do Líbano, da Grécia, da Itália, em primeira mão, do povo. E eu ficava fascinado, gostava de estar entre eles. E fui muito mimado por eles. Só tive carinho, não recebi nada de mau. 
Sempre pensou em ser pesquisador?
— Sempre quis fazer saúde pública, sem estar necessariamente em hospital ou consultório. Foi muito interessante quando cheguei em Londres e vi aquela sociedade cheia de velhos, coisa que ainda não existia aqui, nem em Copacabana quanto mais no Brasil. Pensei, “Que incrível, deve ser ótimo envelhecer aqui, tem tantos serviços disponíveis”. Dois meses me peguei pensando, “Deve ser péssimo envelhecer aqui, não tem vida familiar como eu tive com aqueles velhos todos integrados, aqui tanta gente está isolada, deprimida…”
Por Neldson Marcolin/ Edição Impressa 145 – Março 2008
Fonte: FAPESP Pesquisa On Line, 14/03/2008. Disponível em: 
http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3469&bd=1&pg=1&lg=

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