O “velho” como contador de história: um benefício para todos
| 25/07/2010 - 8:00 Por: Wanda Patrocinio |
Categoria(s): Gerontologia |
Por Eneida Souza Cintra
Embora querendo me dirigir à terceira idade, começo fazendo uma retrospectiva e um paralelo entre os atuais “sessentões” e os “trintões”. Existem verdades irrefutáveis:
- aos mais velhos: todos fomos bonitinhos, mocinhos, “durinhos”, magrinhos.
- aos mais jovens: todos chegarão às rugas, à calvície ou ao cabelo branco.
Durante este processo, todos passamos do riso infantil à contestação da adolescência, enfrentando o famoso conflito de gerações. Atingindo a fase adulta definimos com um pouco mais de clareza nossos valores buscando dirigir a vida com maior independência. Ultrapassada estas fases, há o preparo para a vida prática. Nesta época, é comum já estar-se em companhia de alguém que, tendo feito um trajeto semelhante conseguiu sequestrar sentimentos afetivos, surgindo o desejo do compartilhar, inerente ao ser humano tanto biologicamente como psicologicamente.
No entanto, embora todos tenhamos passado por estas etapas e outros ainda o farão, noto uma grande diferença entre estas duas gerações enquanto esforço para ultrapassar estas fases que devem ser sempre muito lembradas, até exaltadas pelos mais velhos: – as faculdades em menor número exigiam do candidato dedicação plena: não havia férias, feriados e fins de semana – em sendo a classe média extremamente diminuta nem todos conseguiam atingir o patamar do nível universitário; assim, a luta pela sobrevivência começava mais cedo: antes dos dezoito anos já se trabalhava de estafeta, de vendedor, optava-se pelo funcionalismo público para ser “ escriturário”, pequeno comerciante, etc. Absolutamente não quero dizer que tenham desaparecido estas funções; quero dizer apenas que as opções da época estavam mais voltadas a este perfil quando viam inviabilidade de uma formação universitária. Não havia a possibilidade de “esticar” a adolescência. Com todo este preâmbulo, o que quero dizer é que a responsabilidade sobre a própria vida, a busca para sair do ovo materno, a luta pela independência me parece ser mais pertinente à geração mais velha do que a atual, pois não se tinha possibilidade de escolha: ou ingressava-se rapidinho no terceiro nível ou ia-se trabalhar para ajudar tanto a família como a si próprio constituindo novo núcleo.
Sobressaio isto porque não é incomum a tendência do mais velho olhar para trás e pensar naquilo que poderia ter feito e não naquilo que de fato produziu, fez, lutou. O fato de estar, algumas vezes aposentado, leva-o a viver e sentir apenas o presente ajuizando-se sem utilidade, rejeitado por não mais produzir, empurrando-o à um estado deprimido. Não quero diminuir o jovem atual, mas gostaria de lembrar aos mais velhos o quanto se sobressaíram no decorrer da vida, o quanto se doaram para chegar ao sustento da família, o quanto valor existiu na luta, quantas passagens difíceis foram superadas, com que orgulho devem olhar para os descendentes sabendo-se colaboradores maiores desta juventude, mesmo estando os filhos entre aqueles que não tendo obtido o êxito esperado, mantém os pais como provedores.
Meu convite é para que todos pensem nas suas vitórias, nas suas origens, nas transformações que propiciaram na vida dos outros, na própria vida e a grande colaboração que fizeram junto à sociedade. Colaborando com este quadro, a sociedade esquece que os benefícios que vivem no presente, deve-se ao passado construído por aqueles que estão com idade mais avançada. Ao invés de colherem informações, de exaltarem as construções feitas nos mais diversos setores e transformarem o “velho” numa escola de aprendizes, além de ignorá-los, não é incomum imprimir-se um tom de menosprezo. A pouca valorização é injusta principalmente por ser regra da natureza a passagem por todas estas etapas.
Não querendo absolutamente diminuir o trabalho de historiadores (pelo contrário, exalto-os), é muito interessante ouvir as experiências vividas, é muito rico tomar conhecimento por meio de depoimentos de quem viveu a história com os detalhes que envolvia família, preocupações, atitudes tomadas, mudanças que precisaram acontecer mediante algum fato significativo (política, revoluções, o aparecimento da tecnologia, as transformações de hábitos sociais, etc). Poderíamos dizer que o que estudamos nos livros seriam completados com o relato oral ou com um registro “caseiro” que vem, com certeza carregado de emoção. Treinar o ouvido atentando às informações que o idoso tem a ofertar é, não só benefício para ele que se sentirá sustentado e apoiado como também fonte riquíssima de aprendizagem podendo-se fazer paralelos entre o hoje e o ontem.
Se faz necessário enaltecer-se em relação aos anos que ultrapassaram, relembrar com satisfação do que fizeram, imprimir alegria nas conquistas, olhar o que passou carregado de satisfação. Façamos do “velho” um grande contador de histórias! Todos teremos muito a ganhar!
Eneida Souza Cintra – Psicóloga – CRP: 06/23038-7
eneidasouza@uol.com.br
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