A M√°quina do Mundo

30/05/2017 - 11:15 Por:

Categoria(s): Poesia, Sugest√£o de leituras

 

E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo na escurid√£o maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intui√ß√Ķes restavam

a quem de os ter usado os j√° perdera e nem desejaria recobr√°-los,

se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas.

(Trecho de A M√°quina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade)

 

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