Corpo e Dança na Velhice

6/10/2017 - 12:41 Por:

Categoria(s): Gerontologia, Qualidade de Vida, Reflex√£o

Uma marca da sociedade contempor√Ęnea √© a dificuldade em lidar com o envelhecimento; na maioria das vezes, a discrimina√ß√£o e o preconceito fazem com que os idosos n√£o se permitam vivenciar sua velhice de forma plena, expressiva e prazerosa.
 
Os idosos, em geral, demonstram ter vergonha de seu corpo e timidez para coloc√°-lo em movimento. No primeiro contato destas pessoas com a dan√ßa √© importante fazer com que percebam que existe beleza e capacidade em seus movimentos para que possam entrar em contato com sua autoimagem, refletindo sobre o pr√≥prio corpo e valorizando sua experi√™ncia corp√≥rea. Assim, uma das possibilidades de trabalho √© a t√©cnica da dan√ßa interna. Nesta t√©cnica, os participantes come√ßam o trabalho com os olhos fechados. Coloca-se uma m√ļsica envolvente e os participantes s√£o orientados a deixar que o movimento venha de dentro, que deixem a m√ļsica tocar l√° dentro da alma e que deixem o corpo se movimentar conforme os sentimentos que vierem a emergir com a m√ļsica. N√£o existe regra, nem certo e errado. A √ļnica regra √© deixar o movimento vir exclusivamente pelo sentimento que a m√ļsica provoca em seu ser. Realizar um trabalho art√≠stico de olhos fechados permite que os idosos possam agir de forma sens√≠vel, sem se preocuparem com os julgamentos que comumente encontram na sociedade e a√≠ o corpo flui, se movimenta livremente, com beleza e gra√ßa.
 
Mar√≠a Fux, bailarina, core√≥grafa e dan√ßaterapeuta argentina que j√° passou da oitava d√©cada de vida, realiza um trabalho com a dan√ßaterapia em v√°rias faixas et√°rias. Na velhice, em sua experi√™ncia, afirma que muitos idosos chegam √† dan√ßa ap√≥s um longo caminho de esquecimento e desencontros com seu pr√≥prio corpo, com uma hist√≥ria de sedentarismo, com posturas que os distanciam cada vez mais da flexibilidade natural, com tens√Ķes ps√≠quicas, preconceitos e medos enormes de se mostrar. A maioria se questiona se dan√ßar / se expressar √© algo que vale a pena, j√° que sentem que perderam toda possibilidade de express√£o e movimento no cotidiano. Muitos perguntam: Na minha idade, ser√° que eu posso? Ser√° que eu vou conseguir?
 
Pesquisas envolvendo dan√ßa e idosos (Patrocinio, 2010; Leal e Haas, 2006; D‚ÄôAlencar, 2006; Ueno et. al., 2012) comprovam as contribui√ß√Ķes desta atividade para a sa√ļde f√≠sica e mental dos sujeitos, principalmente no que se refere aos ganhos ligados √† for√ßa, ritmo, agilidade, equil√≠brio e flexibilidade.
 
A dança é capaz de produzir mudanças nas pessoas. O que o profissional faz é estimular as potencialidades que todas as pessoas possuem. Através do movimento, a dança possibilita à pessoa a se conhecer melhor, a entrar em contato com partes profundas de si mesma, com sentimentos muitas vezes difíceis de serem expressos verbalmente, e a explorar novas formas de ser e de sentir. Desta forma inicia-se uma modificação de forma fluida no ser idoso, que passa a se escutar sem julgamentos.
 
No entanto, temos sempre o desafio: como fazer com que os idosos menos experientes em dança se respeitem, respeitem o limite do próprio corpo e, principalmente, se aceitem como são? Feldenkrais (1984) afirma que para que a pessoa possa se orientar bem com seu corpo e expressividade, é importante que encontre um jeito de fazer os movimentos de maneira fácil, confortável e satisfatória. Além disto, o profissional pesquisa o que é necessário para a aprendizagem do aluno naquele momento e, através do circuito duplo do feedback, entre o aluno e o profissional, o aluno percebe um novo padrão de possibilidade.
 
De acordo com Goldfarb (1998) as limita√ß√Ķes corporais e a consci√™ncia da temporalidade s√£o problem√°ticas fundamentais no processo de envelhecimento, aparecendo de forma reiterada no discurso dos idosos. Corpo e tempo se entrecruzam no processo de cria√ß√£o em dan√ßa, e das formas desse entrecruzamento nascer√£o as m√ļltiplas possibilidades de expressividade no corpo que envelhece.
 
O conte√ļdo da dan√ßa, o movimento corporal, a expressividade, a reflex√£o com fins de cria√ß√£o, todo este conte√ļdo √© um instrumento importante na vida dos participantes, por proporcionar-lhes bem-estar f√≠sico, social e psicol√≥gico; estas pr√°ticas podem ser ben√©ficas para a sa√ļde, sendo considerada atividades que trazem satisfa√ß√£o pessoal, supera√ß√£o de limites e desenvolvimento de potencialidades e capacidades antes enclausuradas por nossa cultura social.
 
A dança pode, assim, contribuir para a qualidade de vida e para o envelhecimento saudável de adultos e idosos.
 
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