Os Velhos

9/01/2018 - 18:52 Por:

Categoria(s): Arte, Poesia, Reflex√£o

 

Todos nasceram velhos ‚ÄĒ desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre ‚ÄĒ sempre
assim como est√£o hoje
e n√£o deixar√£o nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e l√° se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
n√£o menos de 50 ‚ÄĒ enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. N√£o sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversar√£o
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
D√°diva impens√°vel
nos semblantes fechados,
nos felpudos redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milénios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Boitempo’

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