Domingo, 1º turno das eleições. Como sempre procuro ir cedo à votação para não enfrentar uma fila enorme, num dia ensolarado e inspirativo para reflexões sobre o país, seus desígnios e o exercício da cidadania. Há sempre um sentimento de orgulho, enquanto nos dirigimos às urnas: orgulho de poder escolher seu representante para dirigir a nação e, por outro, há um sentimento de descontentamento em relação ao desrespeito e impatriotismo com que as campanhas eleitorais são conduzidas: pouco instrutivas, pouco reveladoras de propostas para o governo e, às vezes, eu diria beirando a uma certa insanidade e loucura, por vezes, aceita até como uma via de descontentamento, como, por exemplo, votar em Tiririca como voto de protesto.
Mas, vamos a uma outra faceta dessa mesma realidade, nem sempre tão promissora, como às vezes queremos sonhar. Eram 10:30 da manhã quando cheguei ao Colégio Pio XII para votar. A votação demoraria mais porque tínhamos que escolher 06 candidatos. Na eleição anterior chamou-me a atenção o número de idosos nesta sessão eleitoral. O Estatuto do Idoso em pleno exercício e vários idosos utilizando seu direito de preferência nas eleições. Como um país de 1º mundo, pensava eu. E como seria, neste ano, a participação cívica dos idosos quando os desafios do envelhecimento beiram a imprensa, a mídia televisa e virtual?
Eu deveria ser a 11ª da fila, à minha frente adultos de meia-idade ou idosos, atrás de mim um senhor, que se identificou dizendo ter mais de 60 anos. Ele queixava-se que a fila não andava e que, muitos idosos que passavam na frente, tinham na realidade somente 60 anos, eram saudáveis e poderiam estar ocupando a fila comum, como ele havia optado por fazer.
Olhei ao meu redor e pensei: “Como envelhecemos!!”, eu com meus 54 anos, me espelhava naqueles homens e mulheres com meia-idade ou já idosos. A fila refletia a população brasileira – somos hoje 22 milhões de idosos!
De repente, chegou um idoso e mais outro, outro mais e, em pouco tempo, tínhamos em ângulo reto outra fila, agora daqueles que se autodenominavam idosos e, com certeza, exercendo seu direito de votar com preferência.
Meu vizinho de fila, impaciente, insistia que as pessoas saudáveis, mesmo com 60 anos deveriam ocupar a fila comum. Outra senhora, com mais de 60 anos (presumo eu), concordava com ele dizendo que, do contrário, a fila comum não andaria.
O desconforto criou um bate-boca entre as pessoas da fila comum e começaram a expor facetas, não tão iluminadas do envelhecimento. Uma delas dizia que algumas empresas estavam contratando idosos para fazer serviços de banco, pois eles não tinham que se sujeitar a longa espera nas filas. Os ânimos estavam animados e, se tal situação continuasse, seria preciso inventar uma regra qualquer, como por exemplo: 2 de uma fila e 1 de outro, ou 1 de uma fila e 1 de outra.
Confesso ter ficado um tanto constrangida e meu primeiro impulso foi defender o direito do idoso de ter preferência ao voto, porém a questão era visivelmente mais complexa e apontava para outros aspectos. Fiquei antevendo um futuro que já é realidade. Temos que buscar outras formas para o enfrentamento do nosso envelhecimento e nos debater com questões como: O quer fazer quando o direito está sendo utilizado para favorecimento de alguns ou quando se torna absoluto ou discriminatório?
A fila na sessão eleitoral refletia indubitavelmente um dilema a ser vivido nos próximos anos: a idade não nos torna necessariamente melhores ou mais maduros. Sempre podemos nos valer do bom senso, da sabedoria e da tolerância como qualidades para enfrentamento dos dilemas do cotidiano. Oxalá a maturidade nos torne mais sábios para fazer este enfrentamento!
Escrito por Arlete Portella Fontes no dia 03 de novembro de 2010.