Há mais de 2.500 anos Hipócrates disse: fazei do alimento o vosso remédio. Hoje, em pleno século XXI, a Humanidade tem feito do seu alimento o seu veneno. Até há algum tempo fazia parte do senso comum dos médicos que a alimentação do homem contemporâneo tinha problemas. Essa alimentação conheceu várias denominações: moderna, ocidental, ou civilizada. Tal constatação, não obstante, revelou-se um tanto perigosa para a indústria da doença. Alguém poderia querer saber o porquê disso; o que torna a dieta moderna causadora de doenças? E mesmo esse conceito vago de que a alimentação do homem moderno era doentia foi abandonado pelo establishment médico em troca de conceitos tais como maus hábitos alimentares e estilo de vida sedentário. A Drª Elisa Biazzi, por exemplo, no livro Diabetes: um guia prático, relacionou treze fatores patogênicos característicos do estilo de vida moderno, segundo ela colhidos em entrevistas e estatísticas: falta de exercícios físicos, alimentação rica em gorduras, excesso de alimentos de origem animal, gula, refeições em horários irregulares, consumo elevado de refrigerantes, falta de vegetais nas refeições, estresse físico ou emocional, dormir pouco, obesidade, fumo, álcool, fatores genéticos. E, além disso, ouvir rock metálico… (1) Da vaguidão pulamos para a diluição total.
O Dr. Herman Taller, em seu livro Calorias não engordam, já havia notado que, por volta de 1930, os médicos, desprezando as teorias metabólicas na determinação de uma dieta adequada, passaram a considerar os hábitos alimentares defeituosos. (2) Atkins dá mais detalhes sobre esse marco na história da medicina. Os médicos Newburg e Johnston, da Universidade de Michigan são os autores dos estudos que associavam perda de peso à deficit calórico. E ele cita a conclusão: Desejamos expor a afirmação de que a obesidade nunca é causada diretamente por um metabolismo anormal, mas que é sempre devida a hábitos alimentares não ajustados às necessidades metabólicas. Segundo Atkins essa afirmação virou um dogma repetido até os dias de hoje. Coincidentemente com essa inflexão no discurso médico a indústria farmacêutica colocava no mercado as anfetaminas usadas para inibir a fome. Convenhamos, uma verdadeira tabelinha da indústria da doença e um gol de placa contra a humanidade. Quando o povo americano andava consumindo 8 bilhões de doses dessa droga por ano um decreto federal proibiu a sua fabricação. (3) No Brasil tais drogas são vendidas sem receita médica e com propaganda em horário nobre da televisão. De fato, médicos e nutricionistas não estão preocupados, por exemplo, com o que acontece em termos de transformações químicas com o açúcar no organismo. Se, como queria o doutor Taller a medicina levasse em consideração o metabolismo o açúcar substância química portadora de calorias vazias logo seria colocado em xeque. O açúcar de mesa é um cidadão acima de qualquer suspeita; o culpado é você, que possui maus hábitos alimentares, ingere muitas calorias e engorda. Foi nesse momento que se consolidou a diabolização das gorduras. Gordura virou sinônimo de obesidade e se transformou num espantalho atrás do qual se escondia o açúcar. Há milênios um alimento básico da humanidade, a gordura, foi anatematizada e usada como bode expiatório para deixar passar ileso um produto químico moderno que entrou de penetra na mesa da humanidade há alguns séculos. É antigo o expediente da indústria da doença de arranjar bodes expiatórios para livrar a cara do açúcar. Na Coletânea de provérbios de Martinho Lutero (1483-1546) consta: A culpa é minha, falou o queijo, mas foi o açúcar que estragou os dentes. (4) Até o queijo! Hoje as vítimas são a gordura, o sal e até o mel.
Os conceitos em moda de estilo de vida sedentário e maus hábitos alimentares são perversos na medida em que os pacientes de vítimas passam a culpados – afinal as pessoas escolhem seu estilo de vida e seus hábitos alimentares. Trabalho com o conceito de que a dieta do homem moderno é uma dieta patogênica. Segundo esse conceito, aqueles que adoecem por causa do que comem são vítimas dessa dieta. Sou aquele que quer saber por que a dieta é patogênica, o que é que a baiana tem? O que é que faz com que a alimentação da humanidade de hoje seja uma ração doentia? Não é preciso ser historiador para se saber que o homem há muito tempo come e bebe mais ou menos as mesmas coisas: carne, pão, leite, ovos, lentilha, peixe, cereais, frutas, mel, vinho, cerveja etc. A Bíblia fala muito em comida, o mel é citado umas duzentas vezes. Então essa parte, digamos, básica da mesa da humanidade, que é a mesma há muitos séculos, está acima de qualquer suspeita. Todo mundo sabe que, com o avanço da civilização, entraram componentes na mesa da humanidade com os quais os autores da Bíblia sequer sonhavam: cereais refinados, adoçantes artificiais, Coca-Cola, aditivos químicos, agrotóxicos, herbicidas, inseticidas, alimentos processados, leite em pó e açúcar. Então só pode ser isso: são essas coisas modernas que tornam a alimentação do homem contemporâneo uma alimentação doentia.
Mas o que é que exatamente dá o caráter patogênico à dieta? Será o conjunto dos produtos químicos? Será que dá para dizer que a dieta do homem moderno é doentia por que consiste em um coquetel de produtos químicos? Em minha opinião, é simpática e verossímil essa ideia. A lista dos aditivos químicos já alcança a casa dos milhares, dos mais de 6000 aditivos químicos existentes a maioria deles destina-se a alterar a cor e o sabor dos alimentos. O consumo do corante caramelo corresponde a 90% de todos os corantes utilizados, com um consumo mundial aproximado de 200 mil toneladas por ano. Quase 40% do corante caramelo são de açúcares residuais. Acontece que todos, um por um, os aditivos alimentares são rigorosamente controlados pelo governo, através de suas agências. Os níveis de toxicidade, ingestão diária aconselhável, níveis de segurança etc. O que quero dizer é que não me parece que seja por aí. De per si também, nenhum dos chamados aditivos químicos, reconhecidos como tal, chega a marcar ou condicionar a dieta humana. Se eu disser que a dieta moderna é doentia por que é salgada, isso não soa como verdade. E olhe que o sal não é para ser comparado com um produto químico moderno, como por exemplo, o acessulfame k. Ou que a dieta é patogênica por ser colorida de tanto corante. Urucum, corante natural, não faz mal a ninguém. Já os corantes artificiais são suspeitos de provocar câncer. Em todo o mundo há um movimento visando a retirada desses aditivos da lista dos permitidos. O país que foi mais longe nessa direção, a Noruega, aboliu totalmente o uso de corantes artificiais em alimentos no ano de 1975. Se esses corantes em conjunto respondessem pelo caráter patogênico da dieta do homem civilizado, a Noruega seria um exemplo para o mundo de país dotado de uma dieta normal, não patogênica. Não é o caso. Uma falácia muito comum, também, é pôr a culpa numa categoria de alimentos: uns acusam a gordura como o vilão da dieta, outros acusam os carboidratos. Ambos estão errados – carboidratos e gorduras são alimentos e o veneno da dieta não é nenhum alimento, é claro. Ou pelo menos deveria ser.
O veneno da alimentação da humanidade contemporânea é um produto químico barato e abundante que, travestido de alimento, vêm impregnando progressivamente não só os alimentos, mas tudo o que entra pela boca do ser humano: comida, bebida, remédio, e até fumaça de cigarro e pasta de dente. Refiro-me ao açúcar, produto químico por excelência, extraído de um capim e adicionado aos alimentos, agente adoçante e ao mesmo tempo conservante. Não é considerado como tal nem pelas agências do governo que controlam os aditivos alimentares. O açúcar consegue enganar até médicos e químicos que o consideram um carboidrato como outro qualquer. Quando na verdade é o aditivo químico que mudou o caráter da alimentação do ser humano conferindo-lhe patogenicidade. O açúcar, hoje, impregna a alimentação do ser humano de tal modo que a denominação que melhor a define é dieta açucaradamoderna. É o açúcar o verdadeiro e único agente que conferiu caráter patogênico à dieta moderna, por adicionar calorias desnecessárias que prejudicam o metabolismo, além de provocar cárie, ser isento de nutrientes, roubar água, vitaminas e minerais do corpo, vir acompanhado de lixo químico fino tóxico, e também de promover o fenômeno da glicação não-enzimática das proteínas que vai lentamente conduzindo o organismo para a vala comum das moléstias crônicas e degenerativas. O resultado de pesquisas científicas associando o açúcar a uma infinidade de doenças dá para preencher um catálogo telefônico. Este livro negro é apenas um bosquejo. As evidências epidemiológicas já assustam a banda honesta da comunidade científica. E para aqueles que são patologicamente céticos quanto a isso atire a primeira pedra aquele que não tiver um dente obturado, não seja diabético (nem tenha resistência à insulina), não seja obeso (nem tenha sobrepeso), cardíaco ou hipertenso. A Nutrire, mesmo sendo uma revista apoiada por pesos pesados da civilização do açúcar (Coca-Cola, Nestlé, Danone, Ajinomoto, etc.), publicou um artigo a respeito do índice glicêmico dos carboidratos. Antes um parênteses para lembrar que a dieta açucarada moderna impregna de açúcar não só os carboidratos industrializados, mas as proteínas e as gorduras também. Segundo esse artigo, o índice glicêmico dos carboidratos varia muito entre si. Uma mesma quantidade de carboidratos pode provocar respostas glicêmicas (nível de açúcar no sangue) diferentes dependendo de alguns fatores. Uma porção de carboidrato refinado, por exemplo, eleva o açúcar do sangue a níveis mais altos que uma porção equivalente de carboidrato integral.
Na tabela de índices glicêmicos de alguns alimentos que ilustra o artigo da Nutrire, está que o IG de feijão fava é 42 e o mesmo feijão conservado em água com açúcar é 74; o IG de iogurte sem açúcar é 27 e com açúcar 48; o de lentilha verde é 42 e conservada em açúcar 74. A adição de açúcar eleva o índice glicêmico dos alimentos. E segundo explicações propostas por estudiosos citados pela revista, dietas com alto índice glicêmico produzem picos altos de insulina após as refeições, que podem resultar em diminuição de açúcar no sangue para níveis muito baixos. O que desencadearia uma reação aumentando os níveis de ácidos-graxos livres e diminuindo a sensibilidade à ação da insulina. (5) Outros autores citados sustentam que dieta com alto índice glicêmico induz alterações hormonais (insulina, glucagon) e metabólicas (redução da produção hepática de glicose e ácidos-graxos provocada pela alta incorporação de açúcar pelas células musculares e hepáticas). Isso pode limitar a disponibilidade dos combustíveis metabólicos prejudicando a homeostase energética e provocando fome. Tomo a liberdade de concluir: com fome o boneco de açúcar volta a se alimentar da dieta açucarada que novamente irá provocar o mau funcionamento endócrino e metabólico e assim por diante. Esse sim é que é o verdadeiro ciclo do açúcar.
O açúcar só não é denunciado como o agente responsável pelo caráter patogênico da dieta humana por várias razões, entre as quais: a) a existência de uma indústria da doença em funcionamento: aquela cultura industrial que se sustenta mutuamente de alimentos e medicamentos ; b) o green card conferido ao açúcar pela FDA; c) o fato de o açúcar em geral fazer mal à maioria das pessoas de maneira lenta e gradual, se bem que a cárie é um mal imediato que o açúcar provoca, e obesidade e diabetes estão tendo suas incidências aceleradas pelo avanço do açucaramento da dieta; d) o fato de o açúcar ser atualmente o mais dissimulado ópio do povo e até de médicos e intelectuais, e de estar envolto numa cortina ideológica que o apresenta como um alimento natural; e) e, last but not least, ninguém quer encarar o ônus de uma denúncia dessa natureza. O segundo problema da alimentação da humanidade contemporânea é o uso de cereais refinados. Destituídos de fibras, vitaminas e minerais eles contribuem para a subnutrição e prisão de ventre. Outros problemas são os agrotóxicos ou um ou outro aditivo químico potencialmente cancerígeno. Talvez os alimentos transgênicos sejam um problema, não se sabe. Mas se forem retirados da mesa da humanidade os cereais refinados (e adotados os integrais), os aditivos perigosos, os agrotóxicos e até os transgênicos e for deixado o açúcar a dieta continuará com seu caráter patogênico.
(1) Biazzi, E. Diabetes: um guia prático. Rio de Janeio: Exped/Páginas Amarelas, 2001, p. 46.
(2) Taller, Herman. Op. cit. p. 29.
(3) 30 Atkins, Robert. Op. cit. p. 90.
(4) 31 Fonte: Lippmann, p. 64.
(5) Caruso, L.; Menezes, E. W. Índice glicêmico dos alimentos In: Nutrire, São Paulo, SP. V.19/20, p. 49-64, 2000.
Retirado de “O livro negro do açúcar”, de Fernando Carvalho. Rio de Janeiro, 2006. P. 31-33.
http://www.uefs.br/docentes/jmarcia/2007/O_livro_negro_do_acucar1.pdf