
E todas constituem dádivas da generosidade divina: rica inteligência, juízo profundo e bom gosto.
A imaginação é um grande dom, mas é ainda mais notável raciocinar e ter um bom entendimento.
A inteligência não deve estar no esforço, pois seria mais trabalhadora do que aguda.
Pensar bem é o resultado da racionalidade. Aos vinte anos reina a vontade, aos trinta a inteligência, aos quarenta o juízo.
Algumas mentes irradiam luz como os olhos do lince e raciocinam melhor na maior escuridão.
Outras reagem de acordo com a ocasião.
Encontram respostas com freqência e bem: uma fecundidade felicíssima.
E o bom gosto dá sinal a toda a vida.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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As grandes qualidades moldam os grandes homens.
Uma só delas equivale a um conjunto de atributos medíocres.
Houve quem quisesse que todas as suas coisas fossem grandes, até os objetos comuns.
As grandes pessoas devem fazer com que suas qualidades também o sejam!
Em Deus tudo é infinito e imenso.
Assim, num herói tudo também deve ser grande e majestoso: suas ações e palavras serão revertidas de transcendente e grandiosa majestade.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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Fingem-se de muito ocupados os que não têm o que fazer.
Transformam tudo em mistério sem graça: são camaleões que se alimentam de aplausos, provocando o riso.
A vaidade sempre foi incômoda, mas aqui é ridícula: as formiguinhas da honra vão mendingando façanhas.
O sábio não deve ostentar nem sequer suas qualidades mais importantes: contente-se em fazer, deixando o falar para os demais.
Dê belas ações, mas não as venda.
Não se deve alugar uma caneta de ouro para escrever sobre a lama, ofendendo o bom senso.
Melhor é desejar ser um herói do que pretender ser parecido com ele.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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Cada um pensa conforme lhe convém e apresenta razões para suas caprichosas opiniões.
A maior parte dos homens põe a paixão na frente do juízo.
Quando duas pessoas sustentam posições contrárias, cada uma pensa ter razão.
Mas a razão é fiel e não tem duas caras.
O sábio deve agir com cautela em assuntos tão delicados e sua própria dúvida irá corrigir o julgamento inicial sobre o comportamento alheio.
Ao se colocar no lugar do outro e examinar seus motivos, não o condenará nem se justificará tão cegamente.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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Para conservar o respeito, não é preciso ser querido demais.
O amor é mais atrevido que o ódio.
A afeição e a veneração não se dão bem.
O melhor é não ser nem muito temido nem muito amado.
O amor traz a familiaridade e leva embora a estima.
É melhor ser amado com respeito do que com ternura, pois assim se amam os grandes homens.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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Para saber das suas intenções. Se as causas são conhecidas, se conhecem as consequências e delas se deduzem as intenções.
O pessimista é agoureiro, e o maledicente sempre encontra culpas.
Sempre imaginam o pior.
Como não vêem as coisas boas do presente, anunciam o mal futuro.
O apaixonado sempre vê as coisas diferentes do que são, porque é movido pela paixão, não pela razão.
Cada um fala segundo suas preferências e seu humor, e todos estão longe da verdade.
É preciso decifrar os rostos e interpretar os sinais da alma.
Assim se conhecerá o tolo porque está sempre rindo e o falso porque nunca ri.
Cuidado com o perguntador, seja porque é indiscreto, seja porque se fixa nos defeitos.
Não espere muito dos feios, pois costumam se vingar da natureza por tê-los favorecido tão pouco.
A tolice é diretamente proporcional à beleza.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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Desse modo, ainda que não seja considerado inteligente, passará confiança.
Aquele que sabe pode se arriscar a fazer o que quer, mas saber pouco e arriscar-se é jogar-se voluntariamente no precipício.
Quando se sabe pouco, é melhor seguir pela estrada principal.
Deve-se manter o caminho reto e não faltará o caminho firme.
Em todos os casos, sabendo ou não sabendo, a segurança é mais prudente que a singularidade.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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Aquilo que agrada a muitos deve ter algo de bom.
Ainda que não se entenda, que se aproveite.
A singularidade é sempre odiosa e quando está errada, é ridícula.
Desacredita mais o autor da crítica do que o seu objeto, deixando-o sozinho com seu mau gosto.
Aquele que não sabe discernir o que há de bom nas coisas deve dissimular sua inteligência limitada.
Não se deve criticar sem consideração: o mau gosto normalmente nasce da ignorância.
O que todos dizem ou é, ou será.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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O apreço dura enquanto é novidade.
Ela agrada a todos porque varia e refresca o gosto.
Gosta-se mais de uma mediocridade nova do que de um prodígio conhecido.
Até o que é excelente se gasta e envelhece.
A glória da novidade durará pouco, ao final de quatro dias perderá o respeito.
Por isso, deve-se tirar o proveito do primeiro agrado fugaz.
Se o calor da novidade esfria, acaba a paixão, e o gosto se converte em rejeição.
Tudo tem seu momento e passa.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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A sorte gosta de pregar peças e fará o impossível para pegar alguém desprevenido.
A inteligência, a prudência e a coragem devem estar sempre alertas, inclusive a beleza, porque qualquer descuido será fatal.
Quanto mais se precisa de cuidado, menos se tem.
Não pensar é uma armadilha para se fracassar.
Os cautelosos costumam examinar rigorosamente nossas qualidades em um momento de descuido.
Os dias de ostentação são bem conhecidos, e a astúcia os deixa passar.
Mas, quando menos esperamos, o nosso valor é posto à prova.
Do livro A Arte da Prudência, de Baltasar Gracián, 2003
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